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ἄπειρον

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Se há este mundo onde te perdi Há também os que te encontrei Antes da última pá de terra cair Já estava eu a procurar você Se a terra há de nos comer E teus átomos a ela se fundir Ali será o nosso encontro Livres das amarras do tempo Das dimensões da consciência Esta vida é uma de infinitas Acaso encontro de partículas Aqui, mera probabilidade Fator de você partir

A Sombra

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Todos vestimos uma pele sobre nosso ser, alguns a adornam com o que gostariam que fossem e a vestem para enganar a si mesmos. Outros a preparam com sedutores enfeites feitos para atrair os outros, como uma armadilha para pegar uma presa. Quanto àqueles que andam nus, chamamos estes de honestos, mas eu nunca vi nenhum deles, a não ser eu. Eu acabei de mentir, eu não ando nu. Visto uma pele como os demais, mas você deve me entender, é difícil revelar assim aos outros como você se reveste.  A pele é o preço que se paga para viver entre os demais. Pela mesma razão do camaleão se camuflar e da onça ter a pele pintada, nós vestimos nossas peles. Há aqueles que acham que a civilização apaziguou os instintos do homem, mas há também os realistas. Até mesmo a mais inocente e pura das mademoiselles esconde dentro de si um ardente desejo de se colocar absoluta sobre todas as demais damas: a fome de poder ilimitado, travestida pela pudica pureza que a eleva ao divino ideal masculino de feminili...

Melancolia

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Havia uma sensação que lhe permeava a vida, uma espécie de letargia: incapacidade de perceber o presente em tempo suficiente. Quando percebia, já era passado. Não um passado de relance, que lhe desse tempo de olhar para trás, de ter alguma chance de remendá-lo, esse passado que faz com que o atrasado corra atrás do ônibus, ou que o amante volte à estação antes do trem sair e peça para que "Ela" fique. Ao invés disso, a sensação é que sempre foi tarde demais. Como um flash de luz, o presente cegava e atordoava-o, prejudicando-lhe a visão do futuro. O passado, pelo contrário, era frio, mas ordenado: suas peças já foram postas, não havia mais variáveis, era possível olhá-lo e analisá-lo. Fosse essa condição uma completa tortura para o homem, talvez até melhor seria, mas o fato é que assumiu certo gosto por ela. Um doce-amargo, ou amargo-doce, por assim dizer. Guardava as memórias de sua vida em uma adega, num porão em sua mente onde, vez ou outra, descia para prová-las de novo. ...

Sobre a maldição da linguagem

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Percebi que quando criança, a medida que crescemos, vamos tomando compreensões dos objetos e fenômenos que nos cercam. Essas compreensões, em algum momento, colidem com os conceitos já estabelecidos pela sociedade provocando uma angústia que, em um nível mais elementar, nos revela que tudo aquilo que acreditamos é fruto de uma violenta dialética entre nós e o mundo. Acredito que todos nós, mesmo que inconscientemente, percebemos isso já na nossa infância, e que talvez essa seja a primeira grande reflexão existencial que somos obrigados a lidar. Finalmente, devo dizer que a maneira como lidamos com essa inescapável inconciliação parece repercutir em nós pelo resto de nossas vidas. Lembro-me da primeira vez que me deparei com o conceito de morte. A ideia de que um dia eu, minha família e meus amigos iríamos todos morrer era absolutamente assustadora. Lembro-me de chorar e questionar minha mãe a respeito de tamanho absurdo. Lembro-me de minha mãe tentando me consolar no sentido de que eu ...

Sobre a natureza humana

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Pessoa humana. Unidade de vida racional presa à limitação do espaço e do tempo. Os dois limitadores impõem à criatura o peso sobre suas escolhas. Onde ser? Quando ser? Escolhas únicas, irrevogáveis, que definirão nossa insignificante existência, e que nos sujeitarão ao erro, ao fracasso e a dor. Mas é nessa aparente insignificância que encontramos a mais alta significação. Não há, fora dessas limitações, lugar para nenhum sentimento ou virtude. É precisamente por causa dos limites da condição humana que podemos atribuir valor para nossas ações.