A Sombra



Todos vestimos uma pele sobre nosso ser, alguns a adornam com o que gostariam que fossem e a vestem para enganar a si mesmos. Outros a preparam com sedutores enfeites feitos para atrair os outros, como uma armadilha para pegar uma presa. Quanto àqueles que andam nus, chamamos estes de honestos, mas eu nunca vi nenhum deles, a não ser eu.

Eu acabei de mentir, eu não ando nu. Visto uma pele como os demais, mas você deve me entender, é difícil revelar assim aos outros como você se reveste. 

A pele é o preço que se paga para viver entre os demais. Pela mesma razão do camaleão se camuflar e da onça ter a pele pintada, nós vestimos nossas peles. Há aqueles que acham que a civilização apaziguou os instintos do homem, mas há também os realistas.

Até mesmo a mais inocente e pura das mademoiselles esconde dentro de si um ardente desejo de se colocar absoluta sobre todas as demais damas: a fome de poder ilimitado, travestida pela pudica pureza que a eleva ao divino ideal masculino de feminilidade, perfeito disfarce. Nós somos assim, baixos.

Mas é claro que também não somos só baixos. Não procuro aqui denunciar a podridão da humanidade, longe de mim. Pelo contrário, mas é que os altos valores na maioria das vezes são apenas peles, de forma que somente na podridão eu consigo encontrar a beleza.

Não há maior ato de amor do que despir-se para o outro. Mas veja que mesmo na beleza deste ato há o egoísmo de poder livrar-se, finalmente, do peso da própria pele. Ah, e como ela pesa às vezes...

Que você tenha a sorte de encontrar alguém para quem possa despir-se.

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