Sobre a maldição da linguagem



Percebi que quando criança, a medida que crescemos, vamos tomando compreensões dos objetos e fenômenos que nos cercam. Essas compreensões, em algum momento, colidem com os conceitos já estabelecidos pela sociedade provocando uma angústia que, em um nível mais elementar, nos revela que tudo aquilo que acreditamos é fruto de uma violenta dialética entre nós e o mundo. Acredito que todos nós, mesmo que inconscientemente, percebemos isso já na nossa infância, e que talvez essa seja a primeira grande reflexão existencial que somos obrigados a lidar. Finalmente, devo dizer que a maneira como lidamos com essa inescapável inconciliação parece repercutir em nós pelo resto de nossas vidas.

Lembro-me da primeira vez que me deparei com o conceito de morte. A ideia de que um dia eu, minha família e meus amigos iríamos todos morrer era absolutamente assustadora. Lembro-me de chorar e questionar minha mãe a respeito de tamanho absurdo. Lembro-me de minha mãe tentando me consolar no sentido de que eu ainda tinha muito tempo para viver.

O que minha mãe falou, apesar de não ser uma resposta para meu desespero, me fez algum sentido. Talvez não tanto sentido quanto para ela, já que a perspectiva de tempo para um menino de quatro anos é bastante limitada. Mas, tendo confiança nela, aceitei seu argumento de que ainda teríamos muito tempo antes do fim de nossas vidas, e isso me dava tempo para pensar em uma outra solução para o problema. A questão é que, ao me deparar com o conceito de morte, meu eu criança atribuiu um sentido para o fenômeno. Um sentido que talvez tenha sido o mais próximo de um sentido autêntico, livre de referentes, que um dia eu poderia ter elaborado. Certamente era uma ideia de morte limitada, que se resumia a algo negativo, e desesperador. Mas era inegavelmente autêntica.

Dois anos depois, eu entrei em um colégio católico. Olhando agora, se eu tivesse naquele momento pensado em indagar novamente a minha mãe sobre a morte, eu já teria previamente algumas influências. As estruturas imateriais, históricas e culturais da Igreja que estavam naquele ambiente entraram em choque com os valores que eu tinha anteriormente sobre diversas coisas. Dentre elas, a ideia de uma pós-vida, que minava completamente minha compreensão de morte até então.

A todo momento nossas crenças e valores são postas em cheque. Esse processo puramente dialético acontece naturalmente a todo o momento em que nos comunicamos com o mundo, alguns mais marcantes do que outros, e meu tempo de colégio foi um deles: à medida que amadureci e revisitei aquelas lembranças, pude perceber também que quando o padre pregava a missa semanal em minha escola, falando sobre a redenção dos pecados e a vida eterna, não havia só um padre ali falando. Os elementos simbólicos presentes naquela igreja, o altivo teto com grandes pilares, o sofrimento representado nas imagens de jesus ensanguentado na cruz, somado a maneira com que o padre tentava incutir em nós a culpa por sermos pecadores e, sobretudo, a história secular da igreja católica, uma instituição que esteve presente em toda a minha existência e a existência das pessoas mais velhas que meu eu de seis anos conhecia. Todos esses elementos, ali propositalmente agrupados, e não somente as palavras do padre, formavam um poderoso e aparentemente irresistível argumento para que eu me convencesse.

Mas de alguma forma, não me convenceu. Cresci, e já adolescente desenvolvi um certo escárnio daqueles valores. Fazia questão de desrespeitá-los: fugi de missas, abandonei a eucaristia e provei a hóstia sem ter feito a comunhão para “provar o gosto”, ato que para a igreja significava comer a minha própria condenação. Mas apesar de toda rebeldia, ainda sentia inveja dos meus colegas que mantinham sua fé. Percebi que, por terem aceitado os dogmas da Igreja, eles se colocaram em um confortável estado de paz com questões que me perseguem até hoje e, enquanto eles podiam seguir as suas vidas, eu permaneci com aquilo.

Minha inconciliação com a morte me persegue até hoje.

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